Ela sempre soube da sua sexualidade, mas levou anos para assumir; hoje não esconde mais quem é
- Isabela Dos Santos
- 12 de mai. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de mai. de 2022
Por trás de uma pessoa sorridente e simpática, pode haver uma história de muita luta e resistência. Essa situação pode definir bem Selma Leme da Silva Cabral, de 59 anos. Ela, que é assessora parlamentar na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), tem uma história e tanto devido à sua orientação sexual.
ANOS DE REPRESSÃO
Desde cedo, Selma sabia lá no fundo que se sentia atraída por meninas. Mas com a repressão da família e da sociedade, que notava sobre o tema, preferia não pensar muito sobre isso. Teve alguns “namoradinhos” na adolescência e aos 21 anos, seis meses após engravidar, teve que se casar com o pai da sua filha.

Selma desde jovem sabia que sentia atração por meninas. (Foto: arquivo pessoal)
Entretanto, o casamento não deu certo e Selma queria a separação. Mas ela só conseguiu o divórcio após 13 anos e nesse tempo continuou morando com o marido, mas em quartos separados. Um dos motivos para a situação durar tanto tempo era o fato de que a filha de Selma, que já tinha por volta de 15 anos, não aceitou bem o fato da mãe se abrir sobre sua orientação sexual.
“Ela me questionava como pode isso, se você me teve? Se você se casou com o meu pai? As pessoas da minha família, minha filha, não gostavam que eu falasse do assunto”.
Até que um dia Selma se apaixonou. Ela já tinha vivido um relacionamento longo com outra mulher, mas nada como Marcia Cabral, de 50 anos.

Cabral, de branco, e Selma, de Azul. (Foto: Arquivo Pessoal)
Elas sempre foram amigas no trabalho, mas em um determinado momento se viram atraídas uma pela outra. “Um dia ela mudou a foto de perfil e eu elogiei. Fui viajar nessa época, estava de férias e fiquei com ela na cabeça. Quando eu voltei ela me convidou pra jantar”. E a partir daí o relacionamento delas se desenvolveu.
Hora da Coragem
Selma e Cabral- como prefere ser chamada sua parceira- resolveram namorar, mas a amada queria ter um namoro em que pudessem se assumir. E ela também não gostava do fato de Selma ainda ser casada no papel. “Eu estava muito apaixonada, em um ano consegui sair de casa e fui morar com ela, mas ainda tinha a questão do divórcio. Eu ainda carregava o nome de outra pessoa”, diz emocionada.
Após 36 casada no papel com o ex-marido e 13 anos de separação de corpos, muito choro e repressão interna, Selma conseguiu o divórcio em junho de 2020. O casamento civil com Cabral saiu em setembro do mesmo ano e a cerimônia religiosa em dezembro de Santa Bárbara. A filha de Selma que atualmente tem 38 anos e seus pais compareceram à cerimônia.

Selma e Cabral se casaram meses após ela finalmente conseguir o divórcio do ex-marido. (Foto: Arquivo Pessoal)
“Me sinto uma vitoriosa, eu era tão mole, tinha medo de tudo. Sempre pensava no que as pessoas pensariam de mim se eu me abrisse. Hoje em dia eu sou muito feliz e muito feliz com ela”.
Selma e Cabral estão casadas há um ano e quatro meses e juntas há quatro anos. Atualmente, moram no Litoral de São Paulo.
Mais um passo
Após se casar, Selma também se sentiu livre quando pôde falar para seus companheiros de trabalho sobre sua orientação sexual e que casou. Com lágrimas nos olhos, o momento foi muito especial para ela, que sempre escondeu o assunto, principalmente no ambiente profissional por ter trabalhado junto com Cabral.
“Pra mim foi a melhor alegria do mundo quando eu vim trabalhar onde estou hoje. Quando me chamaram eu fiquei: vou poder falar, vou poder contar. Em um dia que tivemos reunião de equipe eu contei e me emocionei porque foi a primeira vez que a gente postou uma foto juntas na rede social. Na verdade, a Marcia postou e fez uma declaração linda, no meu aniversário. Minha chefe me deu folga no dia e a gente foi para o Rio de Janeiro, porque não tivemos Lua de Mel”.

Selma diz que hoje é muito feliz ao lado da atual esposa. (Foto: Arquivo Pessoal)
No atual emprego Selma diz que se sente muito bem, porque pode agir da maneira que quiser. “Nunca mais vou ter que esconder nada de ninguém”.
Todas essas conquistas de vida vieram de um processo. Selma conta que a atual esposa a ajudou com muitas questões, por ter a mente mais aberta. Ela também faz terapia há dois anos, o que a ajudou bastante nesse processo interno e de aceitação.
Conselho
Após todo esse tempo e muita terapia, Selma não esconde mais quem ela é, nem o que sente.
“A única coisa que quero dizer é que a orientação sexual faz parte de cada um e que se você não se assume, vai sofrer, a tendência é somente sofrimento. Se contando você vai sofrer e não contando você vai sofrer, é melhor contar”.



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