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Após ter corpo julgado, professora entende dança como expressão da alma

  • Foto do escritor: Isabela Dos Santos
    Isabela Dos Santos
  • 31 de mai. de 2021
  • 7 min de leitura

A santista Ana Paula Naumann se negava a acreditar que era uma boa bailarina por não ter o corpo considerado padrão

Por Isabela dos Santos

Desde os três anos, Ana Paula Naumann, de 22 anos, está inserida no mundo da dança. Isso porque sua falecida avó, Iolanda Lopes Naumann, a matriculou na aula de jazz com essa idade, pois queria que a neta fizesse alguma atividade física para a saúde. “Eu tinha aula de dança toda segunda, quarta e sexta-feira. Lembro da minha avó me buscando na escola, me dando mamadeira e me levando para a aula”.

Ana iniciou na Ballerine Home Cia de Dança, em Santos. A pequena bailarina tinha uma admiração muito forte pela professora Daniele Pereira. Parou de fazer as aulas aos 10 anos, quando a professora teve que se afastar devido a outro trabalho, e retornou com 13, quando Daniele também voltou a dar aula.


Desde então, Ana nunca mais parou de dançar, mas até seus 20 anos se negava a acreditar que era algo que levaria para a vida. O principal motivo era por não ter um corpo padrão de bailarina. Inclusive, foi um dos fatores para não se dar bem com o balé.


“Eu ouvia muitos comentários do tipo 'você é linda de rosto. Você dança muito bem, mas precisa emagrecer. O figurino não fica bom em você'. Foram falas desnecessárias para mim que era uma criança ainda. Eu colhi todas essas informações negativas e me tranquei. Achei que a dança era uma forma de escapar das situações, mas não algo para a minha vida”.

MUDANDO O PENSAMENTO

O pensamento de Ana foi mudando quando ela percebeu que respirava dança no seu dia a dia, há cerca de dois anos. “Comecei a me dar conta que eu dançava de segunda a segunda”. Mas as inseguranças quanto ao seu corpo ainda falavam muito alto e ela acreditava que não era boa o suficiente para seguir carreira na arte e para dar aula. Esse pensamento mudou quando ela entendeu que não é o corpo que define a dança. Em 2019, a bailarina torceu o tornozelo quando descia de um ônibus e ficou sem dançar durante quatro meses.


“Eu parei minha vida, tive que dar aula sentada, falando e mexendo meus braços. Mas mesmo assim meus alunos conseguiam executar o que eu estava passando. Foi aí que entendi que o corpo é um instrumento muito importante, mas a caixinha da nossa cabeça é muito mais. O que a gente tem de conhecimento ninguém tira. Entendi que não precisava ter um corpo padrão, um corpo magro, para me dar bem na dança”.

APOIO É TUDO


Neste processo, Ana teve o apoio de várias pessoas que estavam ao seu redor. Uma delas é a professora de moderno, contemporâneo e balé Sueli Cherbino, que atua na Ballet Natura Essência. “Ela via meu desespero em não poder dançar durante esse período. Ela me mantinha calma, falava para eu ter paciência. E via também meu desespero em relação ao meu corpo. Mas ela me mostrou que um corpo é só um corpo. O que a gente entrega na dança é o que a gente tem na alma. Não importa se você é gorda ou magra”.


Além de Sueli, o namorado de Ana, Malcon Cristopher Oliveira Carvalho de Andrade, também a ajudou no processo. Ela afirma que precisou de outras pessoas mostrando que estava errada quanto aos julgamentos sobre seu corpo. “Escutei comentários de muita gente. Mas eles (Malcon e Sueli) me fizeram enxergar que não é isso”.

Foi então que ela conseguiu entender que poderia trabalhar com a dança. E naquele ano, em 2019, fez o vestibular para cursar bacharel em Educação Física pela Universidade Paulista de Santos. Começou a faculdade no segundo semestre daquele ano. Atualmente, Ana é bailarina, coreógrafa, professora de dança e atriz. Aos 22, dá aulas particulares, e também atua como professora na CIA Silia e Ceci, de Santos, dando aulas de jazz para adultos. Além disso, integra a quadrilha Paixão Caiçara, de São Vicente e é aluna e bailarina da Ballet Natura Essência.


MOMENTOS MARCANTES


Muitos momentos foram marcantes na vida de Ana Paula Naumann para fazer com que ela acreditasse mais em si mesma na dança. Um deles foi quando coreografou e apresentou o seu primeiro solo na live A Arte Que Nos Move- 13ª Edição, em agosto de 2020. Ela percebeu que estava apta a tudo na dança. A música escolhida para a apresentação foi Você me vira a cabeça, da cantora Alcione.

“Foi um momento muito importante. Foi difícil fazer uma coreografia para mim, eu faço facilmente para os outros, mas para mim é outra coisa. Eu tive ajuda do Malcon. Lá, eu me realizei como bailarina. Ali, eu entendi que estava apta a tudo”.

Em 2020 ainda, Ana adentrou um novo mundo na dança: o da quadrilha, no grupo Paixão Caiçara, de São Vicente. Com essa prática, ela também percebeu que o corpo não significa nada. “Eu tive que me desconstruir enquanto bailarina, porque são passos populares brasileiros. E eu me senti tão bem, porque você não precisa ser magra, só precisa dançar e é isso. Os dançarinos nos acolhem, você dança sem se preocupar, o corpo não é nada. Você coloca a saia (anágua) e pronto: está linda e bela".

Naquele mesmo ano, antes da pandemia de Covid-19 afetar o Brasil, ela ainda se descobriu como atriz. Desacreditada, fez uma audição para atuar no parque de diversão Castelo da Sombra, que ficava em Praia Grande. Passou na audição e interpretou três personagens, incluindo uma bruxa. Além disso, fez apresentações para as redes sociais do castelo e ainda foi convidada a atuar como bruxa, no Halloween, nas ruas de Santos.


“Eu era a capa da entrada do castelo também. Eu fui pega do elenco para fazer as apresentações. Descobri que eu consigo mudar de voz. Foi um marco muito importante, porque além de dançar lá, eu me descobri como atriz”.

Neste ano, a artista foi convidada para dar aula de Jazz adulto na CIA Silia e Ceci, de Santos, provando mais uma vez que ela é capaz. “Em 2018, eu entrei para o grupo Além da Expressão, do coreógrafo Matheus Oliveira, e comecei a coreografar junto com ele. Esse grupo pagava a CIA Silia e Ceci para utilizar o espaço. E agora, em 2021, a tia Ceci me colocou como professora de jazz adulto na CIA mesmo. Eu era só uma coreógrafa de grupo e ela me colocou como professora. Me abriu uma porta gigantesca”.


É UM PROCESSO


Apesar de Ana já entender que pode levar a dança para a vida e que seu corpo não a impede de fazer isso, ainda tem que lidar com o preconceito das pessoas. No último mês de abril, ela foi convidada para participar do clipe de uma música do MC Kawe, em Guarujá, litoral de São Paulo.

“Quando eu cheguei na balsa eu vi todas as meninas que eram modelos. Eu fui contratada como modelo e bailarina, só que todas as meninas eram magras. E elas me olharam da cabeça aos pés, tipo, ‘quem é essa?’. Elas já se conheciam e fingiram que eu não estava lá. Eu fui engolindo o choro até o local de gravação, porque eu vi meu julgamento em relação ao meu corpo no olhar delas. Foi uma sensação horrível, eu só queria ir embora”.

Felizmente, o namorado dela estava lá para dar apoio, pois ele também foi contratado para o clipe. E quando Ana chegou ao local e começou a gravar o clipe, se destacou. “A menina da produção que me chamou gostou muito de mim. Toda vez que ela parava perto de mim, falava que eu era muito linda, dizia: ‘você é muito linda, era isso que eu precisava pra esse clipe, você tem cor’. Era isso que eu precisava ouvir e ela me colocou em destaque em alguns lugares. Na hora de gravar uma parte solo me escolheram e no final da noite as meninas foram solicitas comigo”.

Recentemente, Ana também passou por uma situação que trouxe à tona suas inseguranças durante um ensaio. Na foto de sua CNH ela está com o cabelo curto, pois entrou em transição capilar há 4 anos. Um colega de dança viu a foto e começou a tirar sarro ela e até tirou foto da carteira de motorista da artista.

“Um monte de gente dando risada disso. Eu me acabei de chorar. Entrei em uma crise de ansiedade profunda, fiquei duas semanas me achando horrorosa, inútil. Me senti desrespeitada. Não entendo porque as pessoas me feriam, porque eu não faço isso com os outros. E uma artista que é machucada a vida toda, não se cura de uma hora pra outra.”


PANDEMIA


Além de tudo isso, Ana conta que a pandemia a afetou psicologicamente. “Eu conversei com a minha professora de teatro e ela falou que eu estava muito machucada, e que isso não era eu. Essa pessoa que estava chorando, triste, não era eu. Mas era uma fase que eu tinha que passar. E que se fosse em outra época, se não fosse a situação da Covid-19, eu iria passar por esses episódios mais tranquila. Ao ter minha vida parada e não saber o que fazer fiquei emocionalmente mais afetada. Mas as pessoas não sabiam, porque eu não demonstro”.

Para a artista, que trabalha com dança, a pandemia desmotivou a prática, principalmente no inicio em 2020. Em casa, ela não tem a mesma estrutura de um estúdio para dar aulas e muitas pessoas desanimaram e ela acabou ficando sem o dinheiro que de seus alunos. “Não tem o toque, a presença, então desanima mesmo. Dançar é muito a presença”, afirma. Para passar por essa situação de uma forma melhor, ela criou em 2020 o Ateliê da Nauminha. Se jogou na cozinha, aprendeu várias receitas e fez encomendas. “Foi minha base até o início deste ano. Foi bom para ajudar em casa e ter meu dinheiro. Também foi bom para distrair a mente, cozinhar é uma terapia muito boa”.


SER A PROFESSORA QUE EU GOSTARIA DE TER


Após toda essa experiência na dança, muitas delas traumáticas com falas preconceituosas e que a deixaram para baixo, Ana afirma que tenta ser para seus alunos a professora que ela nunca teve.

“Eu tento ser a professora que incentiva, que fala ‘você consegue sim, não tem problema se errar, vamos de novo’. Eu pego todo esse baque que tive para chegar até aqui como bagagem e material para ser melhor. Eu tento agir como uma professora que eu gostaria de ter tido”.

Ela faz isso principalmente com os adultos, o público com quem mais trabalha atualmente. “É uma coisa que aquece o coração. A dança para eles não é mais uma obrigação. Quando é adulto geralmente já tem uma profissão, então eu não preciso cobrar um alongamento profissional, por exemplo. Eu vou fazer que a pessoa me entregue o que a alma está precisando, com o seu corpo limitado ou não. Vou fazer uma sequência de dança que a pessoa consegue fazer. Quero que meu aluno confie em mim como eu confio nele”.


AULAS COM ANA


A professora de dança além de dar aulas de jazz adulto na CIA Silia e Ceci, dá aulas particulares também. Atualmente, seu público é majoritariamente adulto, mas ela trabalha com todas as faixas etárias. Quem tiver interesse, pode entrar em contato com Ana pelo Instagram ou Facebook.


 
 
 

1 comentário


Ianca Freitas
Ianca Freitas
31 de mai. de 2021

Ela é maravilhosa em tudo o que faz. Demorou, mas ela percebeu o quanto é linda e especial. Uma artista incrível, e eu que acompanhei diversas dessas fases dela sempre soube do potencial e competência. Que sirva de exemplo para todas as meninas e meninos que tem seus sonhos e vontades muitas vezes menosprezados seja por aparência física, questões financeiras, etc; vocês podem tudo, e essa grande mulher tá aí pra provar que é verdade. Voa, Nauminha, mais que nunca o mundo é seu! ❤️

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Jornalista contando histórias, vivências e iniciativas de pessoas, gente como a gente.  
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