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Artistas negros e periféricos são retratados com materiais também desvalorizados socialmente

  • Foto do escritor: Isabela Dos Santos
    Isabela Dos Santos
  • 10 de jun. de 2021
  • 4 min de leitura

Retratos de Kleber Fernando são feitos com madeira velha e lápis de cor e vão virar exposição


Por Isabela dos Santos


Kleber Fernando da Silva Pinto, 30 anos, é servidor público de Praia Grande, onde reside, mas também é artista. Com seu talento, começou a retratar rostos de outros artistas negros e periféricos da Baixada Santista. Pode parecer tinta a óleo, mas na verdade o material utilizado é a madeira velha e lápis de cor. As obras, ao mesmo tempo que impressionam, servem para visibilizar esses artistas que têm vínculo com a periferia na vida e em seus trabalhos. A ideia vai virar exposição graças a aprovação da proposta na Lei Aldir Blanc de Praia Grande.

Kleber desenhou o artista Rasul, de Santos. (Foto: @estudiovinteetres)

“Eu achei interessante desenhar artistas negros da periferia, porque casou bem com a ideia dos materiais que utilizo. A madeira que eu pego na rua, algo que as pessoas pensam que não têm utilidade. O lápis de cor é de certa forma pejorativo, parece que não tem profissionalismo. Então, esses materiais que eu uso passam muito por essa desvalorização social, e achei que seria interessante retratar pessoas que sofrem com esse mesmo olhar”.

Kleber ainda ressalta que os artistas negros e periféricos muitas vezes são invisibilizados e que o retrato realista até pouco tempo era um privilégio. “Anos atrás a gente só via rostos brancos, ninguém ficava retratando pessoas negras para colocar em museu”.


INCENTIVO

Tudo começou em 2020, quando Kleber resolveu dar um quadro retratando o amigo Gabriel Messias como presente de aniversário. Desenhar para ele era um hobby desde criança, por observar a mãe fazer o mesmo. Ele parou por um bom tempo, devido às responsabilidades da vida adulta, mas parece que o artista não perdeu o talento.

Poeta e professor Gabriel Messias. Lápis de cor sobre madeira MDF. (Foto: @estudiovinteetres)

“O ano retrasado eu comecei a ter umas trocas com o poeta Gabriel Messias. Nós conversamos bastante sobre processos de escrita (pois Kleber também escreve). Tinha uma madeira em casa, aquelas de guarda-roupa e eu resolvi fazer um retrato dele. Peguei o lápis de cor e comecei a fazer a foto dele. Dei de presente, foi por afeto”. Kleber conta que Gabriel ficou muito feliz com o presente. Foi graças ao retorno dele que percebeu o quanto aquele quadro poderia ser provocativo.

“O Gabriel foi impulsionador no sentido de não deixar esse trabalho só no campo do hobby. Foi importante para eu entender como era provocativa essa coisa de retratar um artista negro e periférico em um material descartável e com lápis de cor”.

Após isso, Kleber fez algumas encomendas e também começou a retratar artistas da Baixada Santista. Então, sua amiga DJ Profana falou para ele inscrever uma proposta de exposição das artes na Lei Aldir Blanc. Com a aprovação, alguns artistas retratados serão: Preta Jô e Leal do Moç, ambos rappers de Santos, DJ Profana, de Cubatão e Júnior Marques, de Praia Grande, que está ajudando Kleber a produzir e divulgar o evento.

PROCESSO DE CRIAÇÃO

Para fazer um retrato, o primeiro passo de Kleber é escolher a madeira. “Eu não posso ser muito criterioso na hora de escolher, o mais importante é que seja algo reaproveitado. Às vezes pego a madeira pronta, outras madeiras preciso trabalhar um pouco mais, como lixar, cortar, tirar a parte úmida, às vezes eu passo um spray. Vou preparando a madeira para o lápis de cor. É um processo que exige paciência”.

Kleber com os quadros autorais. À direita o poeta Raul, à esquerda um rosto sem nome (Foto: @estudiovinteetres)


Após estar com a madeira pronta, ele vai escolher a foto nas redes sociais do artista, que será retratada no quadro. “Eu vejo algumas fotos do trabalho da pessoa, mas não falo para elas. Gosto de escolher uma foto que o artista esteja em algum trabalho ou no palco. Eu tento registrar o artista e o ofício dele para deixar claro o que ele faz”, explica.

Sobre a técnica, Kleber afirma que não tem muitas, que usa aquilo que aprendeu e desenvolveu durante o tempo. Ele até diz que desenhar na madeira é quase como desenhar no papel com o lápis de cor. “Mas tem alguns truques de sombra e luz, às vezes eu tiro medidas e preciso quadricular algumas partes. Vou tentando deixar o mais próximo possível da foto, mas trazendo também um pouco de fantasia e identidade. Tento criar outro filtro não tão perto do realismo, deixando com um pouco de cor e de graça”.


CONEXÃO

Kleber acredita que a exposição, além de visibilizar os artistas negros e periféricos da Baixada Santista, pode trazer conexão entre eles e o público. "É uma oportunidade para as pessoas também conhecerem os rostos dos artistas fora da rede social. As pessoas podem compartilhar um texto de um artista, por exemplo, mas não saber quem são eles, onde vivem”. A ideia dele é também disponibilizar a biografia dos artistas retratados na exposição para que o público possa conhecer mais o trabalho desses artistas que trazem um pouco da periferia.

“É tornar esses rostos visíveis e possibilitar que pessoas que estão na correria do dia a dia, que não necessariamente param para pesquisar sobre esses artistas, saibam quem eles são”.

Artista Kleber Fernando (Foto: @estudiovinteetres)

A exposição ainda não tem data marcada, mas como a Lei Aldir Blanc de Praia Grande estipulou o prazo até dia 31 de dezembro de 2021, necessariamente vai acontecer ainda este ano. Kleber cogita a possibilidade do evento acontecer em um espaço aberto e presencialmente. Mas caso não seja possível, devido à pandemia de Covid-19, acontecerá virtualmente.


O trabalho de Kleber pode ser acompanhado em suas redes sociais, como Facebook e Instagram.



 
 
 

2 comentários


Nattalia Araujo
Nattalia Araujo
11 de jun. de 2021

Fico muito alegre em saber que sua arte está sendo valorizada.

A história de como começou e as consequências da persistência em retratar a beleza da periférica é de fato enriquecedor para a história!

Meus parabéns!

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Kleber Fernando Disforme
11 de jun. de 2021
Respondendo a

Fico muito feliz com essas partilhas todas. É impulsionador. Muito obrigado!

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Jornalista contando histórias, vivências e iniciativas de pessoas, gente como a gente.  
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