Colorismo: Consciência Negra passa pelos tons de pele; veja relatos
- Isabela Dos Santos
- 23 de abr. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 24 de abr. de 2021
Por Isabela dos Santos- texto escrito em 2018

Pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pessoas que se autodeclaram pretas e pardas constituem a população negra - mais da metade do País. No entanto, quem não tem o tom da pele muito escura costuma ouvir: "você não é negro". Se afirmar em meio a contradição da sociedade não é fácil. O processo de aceitação da sua própria origem é demorado e pode até não acontecer. Entender o conceito do 'colorismo' é necessário para combater o racismo e resgatar a ancestralidade.
“As pessoas sempre falam que não sou negra, e sim morena, parda, mulata. Eu respondo: Não, eu sou negra”, diz a atriz Juliana Souza, de 27 anos.
O mesmo ocorre com a tatuadora Nathalia Correa Avidago, de 25 anos. “Acho que não só eu, mas muitas meninas não se identificavam como negra, mas como mulata ou morena, porque crescemos ouvindo isso. Confesso que estava em um conflito enorme pra entender o que eu era e onde eu me encaixava. Até que um dia pesquisei e entendi um pouco mais sobre o ‘colorismo’. Naquele momento eu tive certeza do que eu era e dei um passo enorme ao caminho certo”, relata.
O conceito norte-americano que abriu os olhos de Nathalia, também conhecido como pigmentocracia pelos pesquisadores brasileiros, foi utilizado pela primeira vez, na década de 80, pela escritora Alice Walker e vem se popularizando no Brasil. O termo aborda como as pessoas negras de pele mais escuras sofrem racismo mais forte e explícito do que as pessoas negras de pele clara.
Segundo a mestre em História da África e professora do cursinho pré-vestibular Educafro de São Vicente, Andréia Kelly, a divisão faz com que muitas vezes a pessoa de pele mais clara não identifique sua negritude. “A expressão caracteriza a diferença de tratamento que as pessoas negras recebem da sociedade baseada na sua tonalidade de pele. Enquanto a cor mais clara, os traços da boca, narizes mais finos e o cabelo mais solto, são mais aceitos, a pessoa negra de pele escura, cabelo crespo e traços marcados são mais discriminadas. Então muitas vezes a pessoa com o tom de pele mais claro, geralmente a que se autodeclara parda, não se identifica como negra, porque não se vê parte do racismo”, explica.
A comerciante de vendas, de 36 anos, Andressa dos Santos do Espirito Santo é negra de pele escura. As pessoas sempre a usam como comparativo para mostrar o que é e o que não é ser negro. “Apontam pra mim e falam: a Andressa é negra, você não. Você é parda, morena. No imaginário social só quem tem pele escura é negra. Isso acontece porque acham que chamar de negro é ofensivo, quando é o que somos”, destaca.
O estudante de Direito Guilherme Aurélio Santos Trindade, de 26 anos, autodeclarado preto, comenta a classificação da negritude. “A cor da pele é a primeira coisa visível que você não consegue esconder, então as pessoas ao me olharem já sabem que sou negro porque minha pele é escura. Mas com o pardo é diferente. O branco sabe que você não é branco, mas ele tenta te embranquecer ao dizer que não é negro. Já é tão comum que até os próprios negros pensam assim”, ressalta.
MISCIGENAÇÃO
A definição de ‘colorismo’ ou pigmentocracia não existiria sem o processo de miscigenação. O relacionamento entre brancos, negros, indígenas e outros povos faz o País conhecido por ser a “mistura de todas as raças”. Porém a miscigenação trouxe consequências que estão intimamente ligadas ao fato das pessoas de pele mais clara não identificarem ou aceitarem sua negritude e da sociedade em geral achar que chamar alguém de negro é ofensivo. Foi da miscigenação que a utilização de expressões como “morena”, “mulata” e “parda” começou a substituir fortemente a palavra negra. O desejo de embranquecer a população ficou mais forte depois da abolição da escravidão em 1888, que ficou conhecida como “teoria do embraquecimento”. Mas o processo já era uma realidade na vida de senhores e escravos.
“As mulheres de peles mais claras eram vistas como “objetos sexuais” e as mais escuras eram as “feitas para trabalhar”. Então os europeus escolhiam geralmente as mulheres de pele mais claras e tinham relações, a grande maioria fruto do estupro. Assim nasciam crianças “embranquecidas”, ou seja, da mesma cor ou mais claras que a mãe, surgindo o desejo de “embranquecer” a sociedade brasileira”. Como a pessoa não era vista como negra e sim mestiça, muitos dos filhos frutos da miscigenação eram considerados homens livres no processo de escravidão, pois uma das partes era a família branca. Mas eles também eram confundidos com escravos porque também não eram brancos. Este foi um dos fatos históricos que desencadeou a confusão de identidade presenciada até hoje, tanto no indivíduo quanto na sociedade.
CONSEQUÊNCIAS
Além da pessoa parda muitas vezes ficar confusa sobre quem ela é, a não identificação como pessoa negra pode levar o próprio pardo a reproduzir o racismo para a pessoa de pele mais escura, já que não se sente parte do mesmo problema. O fato de não se identificar também acaba trazendo consequências. “Muitas vezes ela é vítima do racismo, de comentários racistas, mas não associa porque não sabe que é negra. Isso acaba mexendo com a autoestima, começa a se considerar feia, se auto-boicota e acha que é tudo coisa da cabeça, quando na verdade é racismo”, explica a mestre.
Bruna Pereira Rodrigues de 21 anos sofreu as consequências antes de “se descobrir”. “Eu cresci me vendo como “morena” “parda”, só pra depois de grande abrir os olhos e perceber que alguns comportamentos, brincadeiras que eu recebia na infância eram na verdade partes do racismo. Tem pouco mais de três anos que me reconheci como preta de pele clara e é uma evolução constante, no dia a dia mesmo, muito estudo e trabalho com a própria autoestima!”.
CONSCIENTIZAÇÃO
Para a geração conectada, Bruna fala sobre a importância da representatividade na internet. “Faço questão de ressaltar como é essencial a presença de pessoas negras nesse mundo de influencers .Eu assisti muitos vídeos e aos poucos fui me identificando”, conta.
A entrevistada Nathalia aposta na criação consciente das crianças. “Na infância a falta de representatividade é enorme, a mídia a branca certo? Então eu acho que por falta dessa representatividade que é tão importante. Eu cresci com dúvidas, por isso é bem importante empoderar as crianças desde já, pra evitar essa angústia de não saber quem você é e onde você se encaixa!”.
De acordo com os entrevistados, o primeiro passo para alcançar uma conscientização coletiva é se identificar como negro. Para a mestre em história da África, Andréia Kelly a sociedade como um todo “precisa entender esse mecanismo de divisão que separa as pessoas negras por tonalidades e traços diferentes”. Guilherme ainda complementa “a partir do momento que me identifico como negro automaticamente me incomodo com o racismo e vou lutar contra”. Mas também ressalta a importância da conscientização coletiva. “Não adianta o negro ter consciência, se as pessoas brancas não têm. Nós vivemos em sociedade, então para tentarmos superar o problema precisamos que todos entendam e estejam dispostos a mudar”, finaliza.



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