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Bonecas na roça? Para Dona Madalena só se for de pano

  • Foto do escritor: Isabela Dos Santos
    Isabela Dos Santos
  • 23 de abr. de 2021
  • 3 min de leitura

Atualizado: 25 de abr. de 2021

Alternativa para ter brinquedos na roça era fazer bonecas de pano

Por Isabela dos Santos

Presentear crianças com bonecas compradas pode ser um ato comum nos dias de hoje. Mas a aposentada Maria Madalena Moraes dos Santos, 66 anos, aponta outra realidade vivida em sua infância e que se assemelha a de muitas outras meninas sem condições para tal gasto. “Ninguém tinha dinheiro pra comprar, aí minha madrinha dava de pano. Depois, aprendemos a fazer”.


Nascida em 22 de maio de 1954, no município de Santa Terezinha, na região Lagoa do Alto, na Bahia, Maria Madalena (conhecida também como minha avó), ganhava bonecas de panos das filhas de sua madrinha Justina, que morava na região da Lagoa do Mato. “Elas faziam as bonecas bem feitinhas e davam para mim e para minha irmã Maria José”. As bonecas eram feitas com qualquer pano branco que encontrassem , que enchiam com algodão.

“Tinha um pezão de algodão que minha mãe Regina Gonçalves da Silva plantava, a gente tirava ele do caroço e enchia o pano da boneca”.

Maria Madalena ainda lembra que sua mãe fazia linha de costurar com o algodão. “Ela pegava um fuso e ia rodando, puxando a linha”.


O BATISMO DAS BONECAS


Dona Madalena nunca esquece de um episódio em que houve um batismo das bonecas que tinham. Suas duas irmãs, Maria José e Adélia, tinham ganhado bonecas de plástico pela primeira vez. A dela seguia sendo de pano, como era o caso da maioria das meninas presentes no local.

“Maria José foi a primeira a ganhar uma boneca de plástico quando criança. Ela ganhou de um homem que não lembro o nome. Era tão bonitinha. A outra quem ganhou foi Adélia, meu pai trouxe de São Paulo pra ela, porque era a mais nova. A minha era miudinha de pano”, explica.

Na ocasião do batismo, muitas meninas levaram suas bonecas, fizeram uma roda no terreiro e as colocaram no braço. “Foi engraçado”, relembra. Ao final, elas trocaram vestidos para as bonecas. “Adélia ganhou um vestido vermelho, bonito, para a sua, foi Noemia que fez”.


BONECAS DA BISAVÓ


A aposentada tem uma vaga lembrança das bonecas de sua bisavó por parte de pai, Pretonilha.

“Ela tinha uma bonequinha de pano, tinha que ver que bonitinha. Era tão bem feitinha, ela fazia os vestidinhos tão lindos. Na verdade, ela tinha três: uma de pano, outra de louça, e uma com a cabeça de louça e corpo de pano. Uma delas tinha pomba de ouro no vestido. Ela nem deixava a gente pegar”.

Infelizmente, ela não sabe qual foi o destino das bonecas após o falecimento de Petronilda.


A BONECA FEIJÃO QUEIMADO


Maria Madalena aprendeu a fazer as bonecas de pano com as filhas de sua madrinha quando tinha 15 anos. Certa ocasião, quando já era mãe, estava confeccionando uma para sua filha Rai e ri muito quando lembra desse dia.

“Fiquei tão entretida fazendo a boneca que esqueci o feijão no fogo e ele queimou. É a única boneca que lembro o nome: Feijão Queimado”.

A VIDA É DURA

Mas nem tudo são lembranças de infância. Maria Madalena conta que não fez muitas bonecas e parou de confeccionar porque não tinha tempo, precisava colocar o pão na mesa para os quatro filhos.


“Eu saia às 7h e voltava às 17h. Trabalhava de enxada, limpando mandioca, cortando lenha para vender por metro, destocando pasto e capim, limpando tanque… Já fiz tanta coisa fia de Deus”.


Ela lembra que trabalhava em um povoado chamado Gameleira, durante a semana toda e ganhava por dia.

“Era uma mixaria. A coisa não era fácil não. Quando eu chegava 17h ainda pegava lata pra buscar água na fonte na cabeça e levar pra casa”.

DÉCADAS DEPOIS

No ano da pandemia da Covid-19, 2020, Maria Madalena conversava com sua neta Isabela dos Santos, em Maresias, onde estava morando, e relembrou que fazia bonecas de pano. Foi incentivada a voltar a fazer, pediu os panos, pegou a linha e botou a mão na massa.

Mesmo após tanto tempo sem confeccionar uma boneca, Maria Madalena não teve dificuldade em costurar.

“Não me esqueci como fazer. Tem hora que o corte todinho vem à mente. Quer dizer, a primeira eu me esqueci de fazer o braço, mas o corpo ficou bonitinho”.

Essa primeira boneca que ela fez após anos sem costurar recebeu o nome de “kirida”, forma carinhosa que sua neta a chama às vezes.

Em 2021, dona Madalena se encontra em Elísio Medrado, na Bahia, e já fez outras duas bonecas de pano, e sente que está evoluindo.


 
 
 

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